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"SóFRIDAS" por Sandra Vargas.

03/03/2015

Olá, Trippers!

 

No meio deste mar de sentimentos, Sandra Vargas, diretora do nosso novo trabalho, nos envia sua sensível visão de como tudo nasceu. 
Agradecemos de todo coração (desde sempre) todo o aprendizado e paciência conosco, a amizade, o partilhar desta história. Sandra nos emocionou...

 

"Ser capaz de falar dos objetos familiares que nos cercam não é uma prova de futilidade, mas ao contrário, de singular profundidade. Nossas casas são, de fato, um pouco parecidas a um ateliê de um pesquisador ou um artista, coberto de objetos esperando a transformação. Mas, então, mais que os pesquisadores ou artistas transformarem os objetos que os cercam, somos nós mesmos, que ao contrário, somos transformados no contato com os objetos familiares - Serge Tisseron, Comment l’esprit vient aux objets.

O uso Teatro de Objetos, no processo de criação do espetáculo SóFRIDAS, foi uma tentativa de explorar o potencial poético do objeto, dando a ele uma outra função (poética) sem transformar a sua natureza. 
Todos sabemos para que serve um objeto e considerando o que o espectador sabe dele, é que conseguimos construir alguma metáfora particular com ele. Desta forma, portanto, sempre a partir daquilo que nós já sabemos que o objeto remete a todos e, valendo-se disto, o cruzamos com a memória particular do ator, que diante de nós, o transforma em algo muito mais profundo. 
Em SóFRIDAS, nosso ponto de partida foram as bolsas de mulheres.
As atrizes da Trip, que viajaram de Rio do Sul até São Paulo, para desenvolvermos este projeto juntas, foram incumbidas a se embrenhar nos brechós desta grande metrópole e trazer bolsas até o nosso local de trabalho. Este seria o nosso ponto de partida para a dramaturgia. Quando as bolsas foram colocadas diante nós, elas já nos diziam muitas coisas, somente pelo aspecto externo. Pedi para cada atriz escrever uma carta para cada bolsa, descrevendo a mulher, a dona, de cada uma dessas bolsas. 
Começávamos, então, a explorar o aspecto simbólico dos objetos. Depois pedi para que cada uma delas escolhesse três ou quatro objetos para descrever as mulheres descritas nas cartas, sem saber que em cada uma das bolsas eu já havia colocado um objeto qualquer. 
Neste ponto, nós jogávamos para o abismo, o processo ficava mais arriscado, nem as atrizes nem eu, sabíamos o quanto os objetos nos levariam a dizer coisas que talvez não fossemos capaz de dizer de outra forma.

No meio de muitas risadas e alguns choros, os objetos nos guiaram por uma trilha poética que nos fez falar de muitas mulheres que talvez estejam, estiveram ou estarão, algum dia, escondidas dentro de cada uma de nós".

 

Sandra Vargas

 

 

 

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